quarta-feira, 30 de abril de 2014

Mensagem do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Pelotas para o Dia Nacional da Mulher e para o Dia dos Trabalhadores



 
Mulher: sinônimo de trabalho


Somos todas tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes!
     Somos baixas, altas e médias. Somos P, M, G e todas tão coloridas, tão vibrantes, talentosas, cheias de ideias e principalmente repletas de vida.
     Nascemos todas com o mesmo gênero, mas como já dizia Simone de Bevouir “Ninguém nasce MULHER, se torna MULHER”. Por muitos anos não compreendi esta feminista de carteirinha até o tempo passar e os diferentes ciclos do SER MULHER desabrochar dentro de mim, a ponto de me fazer entender que a diferença crucial desta afirmação está no fato de o longo da nossa vida e a trajetória individual que cada uma de nós desempenha nos faz ser MULHER de verdade.
   O mundo que vivemos hoje é cheio de pequenos mundos e nós Mulheres estamos presentes em todos eles. Somos mulheres do campo, da agricultura familiar, do pé na terra, da força, do braço na enxada, da lavoura... Ou somos também mulheres rurais, mas de etnias, origens e tradições bem distintas, pois somos remanescentes de quilombolas, de famílias que vieram de um regime de escravidão, com tantas histórias roubadas por um episódio da nossa história marcado pela dor, pela opressão e crueldade, na qual infelizmente ainda hoje, algumas de nós ainda são vítimas, tanto quanto no tempo das senzalas. Somos ainda mulheres indígenas com hábitos, costumes e tradições milenares, replicando uma cultura primitiva e muito original, mas que enfrenta padrões e costumes do mundo moderno. Somos pescadoras, mulheres do mar e das águas, marcadas pela ansiedade da espera dos barcos e das embarcações, que trazem consigo os maridos e seus filhos, assim como o sustento e o ganha pão da família.
   Ainda somos a maioria no planeta, porém ainda nos sentindo como minoria. Sempre paro a me perguntar por que continuamos repetindo este cenário de tanta falta de crédito nas próprias mulheres.
   Somos tão capazes e envolvidas com as coisas do mundo e atendemos a tantas frentes de trabalho com compromisso e responsabilidade, mas mesmo assim parece que ainda não cremos umas nas outras. O retrato disto são os cargos políticos e públicos de comando e liderança tão pouco ocupados por nós mulheres!
   Estamos presentes nas cidades e somos mulheres urbanas e por estar mais perto de tudo, temos mais acesso a educação e ao mercado de trabalho.
   Somos mulheres intelectualizadas, batalhadoras dos nossos direitos, buscamos espaços de legitimação da força feminina e lutamos por dignidade, seja através de mercados profissionais mais justos ou historicamente masculinizados e preconceituosos. Quebrando estes estigmas e seus tabus estamos provando que lugar de MULHER É ONDE ELA QUISER ESTAR!
  Por isso, estamos na construção civil, nos transportes coletivos, somos garis e também delegadas, comerciárias, professoras e tantas outras profissões que são a cara de uma mulher.
  Somos ainda as donas da casa, a que cozinha com amor, lava, passa, costura, limpa, escuta e tenta sempre agradar. Mas somos as mesmas “aquelas” que acreditaram nas histórias do “príncipe encantado” que quando encontrasse a sua princesa nada mais de ruim e difícil aconteceria nas nossas vidas.
 O momento que vivemos hoje é de nos desafiar para não sermos mais a metade da maçã dos outros, temos de ser inteiros e buscar relacionamentos de parceria e não mais de dependência com se fez ao longo dos anos. Temos que buscar um companheiro porque gostamos da sua companhia e assim o queremos porque é bom para nós e não mais porque precisamos. E o trabalho é a peça chave e fundamental para nos emancipar deste ciclo de dependência tão dominante.
 Até porque quando a maternidade chega, e isto só acontece para as mulheres, isso muda as nossas vidas por inteiro e para sempre, é quase como se pudéssemos nos redescobrir. E ser mãe dá muito trabalho, pois temos um mundo que se abre a nossa frente, recheado de responsabilidades, doações, sentimentos, sensações e experiências que só podem ser explicadas com a grandeza das palavras AMOR VERDADEIRO.
 PARABÉNS a todas as MULHERES pelo Dia Nacional da Mulher (30/04) e PARABÉNS também para todas nós que somos sinônimo de muito e diversas formas de trabalho, imprescindíveis para a construção de uma sociedade mais justa, amorosa e harmoniosa.

Texto escrito por Caroline Crochemore Velloso
Conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Pelotas




terça-feira, 29 de abril de 2014

Doutorandas têm apoio da SPM e da SCIT


Secretária em exercício Ana Félix reuni-se com a
secretária da Scit, Ghuissa Hauser - Foto: Sátira Machado
 
Na sexta-feira (25), a secretária de Políticas para as Mulheres do RS em exercício, Ana Félix, reuniu-se com a secretária-adjunta de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico (Scit), Ghuissa Hauser, com o objetivo de promover o 1º Les Doctoriales no Brasil que amplia o mercado para doutorandos/as. Em reunião com a secretária Ana, Ghissia falou da importância de contar com um grande número de mulheres no evento gaúcho.

Sobre o Les Doctoriales
A Scit, a universidade francesa Unam e as instituições do Estado (que possuem cursos de doutorado) estão organizando a primeira edição do Les Doctoriales em solo brasileiro. O programa irá aproximar doutorandos/as e empreendedores, para atuarem juntos/as no mercado de trabalho.
O encontro consiste em 5 dias de seminários, onde 100 alunos/as, do último ano de doutorado, participarão de atividades com profissionais e empresas para desenvolverem ideias inovadoras ao mercado. O seminário ocorrerá de 2 a 7 de novembro, na serra gaúcha. As inscrições se iniciam no mês de junho.

Via site da SPM\RS

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Audiência Pública alusiva ao Dia Internacional da Mulher

Confira a seleção de algumas falas dos convidados a compor a mesa da Audiência Pública alusiva ao Dia Internacional da Mulher e pela valorização do trabalho feminino.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Segunda edição do Programa Mulheres Mil


Para Mulheres em situação de risco e/ou vulnerabilidade social
Documentos necessários:
  • Carteira Profissional de Trabalho
  • Comprovante do último pagamento do Bolsa Família, Cartão do Bolsa Família
  •  Carteira de identidade
  • CPF, Comprovante de escolaridade (atestado ou histórico escolar)
  •  e cartão bancário de conta corrente própria ou de conta poupança própria em Banco cadastrado no SIAFI (Bancos: Banco do Brasil, BANRISUL, Caixa Econômica Federal e Banco Santander) (não serão aceitas contas bancárias conjuntas)


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Inscrições para Encontro Regional do Sul vão até o dia 30


Vai até o próximo dia 30 de abril o período de inscrições para o Encontro Regional dos Organismos de Políticas para as Mulheres (OPMs) da região Sul. Gestoras estaduais e municipais participantes do Fórum Nacional dos OPMs podem efetuar a inscrição por meio de formulário eletrônico. O cadastro pode ser feito no site: www.cadmosistemas.com/opm/. O evento acontecerá de 19 a 21 de maio, em Porto Alegre. Os Encontros Regionais dos OPMs vão acontecer ao longo deste ano e resultam dos encaminhamentos do Encontro Nacional, que aconteceu em outubro de 2013. O objetivo é promover o fortalecimento dos organismos, bem como aprofundar o diálogo entre gestoras de políticas para mulheres nas cinco regiões brasileiras. A iniciativa é uma realização da Secretaria de Políticas para as Mulheres Nacional, por meio da Secretaria de Articulação Institucional e Ações Temáticas, em parceria com as gestoras dos estados. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Organismos de Políticas para as Mulheres no RS

Conselhos Municipais das Mulheres no RS

Contato das Casas Abrigo e Centros de Referência do Estado

comunicado do GAMP


Caras Companheiras e amigas,
Mulheres de garra!

Na condição de coordenadora interina do GAMP, ONG fundada há 22 anos, as convido a se associarem em nossa entidade e se somarem na luta pela promoção e implementação dos direitos das mulheres.

Como é sabido por todas em que pese tenhamos um conjunto de leis expressivo que trata dessa temática, ainda temos muito a caminhar e a construir para se dar efetividade e garantia dos direitos declarados.

Precisamos nos fortalecer para podermos contribuir na articulação e formação das redes de apoio e políticas públicas. Daí o convite para que contribuam na/da forma que puderem.

A ficha de sócia contribuinte (logo abaixo), caso haja interesse, peço que a reencaminhem preenchida,  servirá para que possamos ter informações e criarmos um banco de dados.

É importante que saibamos qual a formação e com que temas vocês trabalham e se dispõem a realizar oficinas, palestras ou textos que possam vir a integrar nosso blog que será reativado.

Saudações Feministas

Neusa Elaine


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cine Enfermagem: O Renascimento do parto‏

Próxima segunda feira, dia 14 de abril, às 19 horas, será exibido o filme "O Renascimento do Parto". Logo após roda de conversa, afim de discutir e trocar conhecimentos.

Será na Universidade Católica de Pelotas (Rua Gonçalves Chaves, 373)

 Realização: Diretório Acadêmico Clair de Souza Zamo
Mais informações: da.clairzamo_enfermagemucpel@hotmail.com


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Instituto Consulado da Mulher lança o Prêmio Usinas do Trabalho 2014

Instituto Consulado da Mulher lançou o Prêmio Usinas do Trabalho 2014, que selecionará 20 empreendimentos coletivos de todo o país, nas áreas de alimentação e/ou lavanderia, que sigam princípios de autogestão, solidariedade e cooperativismo.

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Ação social da Consul seleciona grupos para suporte a negócio
O Instituto Consulado da Mulher, ação social da Consul que assessora negócios populares liderados por mulheres em vulnerabilidade socioeconômica, seleciona em todo país, até 23 de abril, 20 grupos de trabalho que tenham como base serviços de lavanderia e alimentação.
Todos escolhidos recebem assessoria do Consulado, doação de eletrodomésticos Consul e capacitação em gestão e economia solidária. Os 10 primeiros colocados contam, ainda, com R$ 5 mil reais para investimento na infraestrutura do espaço de produção.
Para participar, os grupos devem ter característica popular e coletiva; lideranças femininas atuantes; 70% do grupo com renda familiar per capita igual ou inferior um salário mínimo mensal; no mínimo seis meses de existência; infraestrutura mínima para a instalação de eletrodomésticos para produção; possibilidade de crescimento e emancipação do negócio; e ser composto por, no mínimo, 70% de mulheres.

A inscrição deverá ser realizada pelos representantes legais do grupo ou, caso o negócio não seja constituído como pessoa jurídica, por uma entidade parceira no site www.consuladodamulher.org.br/usinas2014.

As inscrições irão até o dia 23 de abril de 2014 e os 20 grupos vencedores receberão:
- Assessoria do Consulado da Mulher;
- Evento de formação em gestão e economia solidária para compartilhamento de experiências durante o período de assessoria;
- Doação de eletrodomésticos Consul (como meios de produção);
Os 10 primeiros colocados ganham, ainda, 5 mil reais para investimento na infraestrutura e materiais de produção.
Para conhecer os pré-requisitos e fazer o download da ficha de inscrição, acesse o hotsite http://consuladodamulher.org.br/usinas2014/.


Sobre o Consulado da Mulher

O Instituto Consulado da Mulher é uma ação social da marca Consul que oferece assessoria a mulheres de baixa renda e pouca escolaridade. O objetivo é que, com sua atividade empreendedora, possam gerar renda e proporcionar melhores condições de vida a si mesmas e a suas famílias. Para isso, o Instituto conta com uma metodologia própria de assessoria a empreendimentos populares, reconhecida pela Fundação Banco do Brasil e pela Unesco como uma tecnologia social, replicável e eficaz, que entrega os resultados aos quais se propõe. Desde a sua fundação, em 2002, o Consulado da Mulher já beneficiou mais de 32 mil pessoas e todo o Brasil.




terça-feira, 8 de abril de 2014

Errata? O Ipea Errou, mas o Brasil Continua Machista

Fonte: Vice Brasil
por Marie Declercq, em

Duas semanas atrás, eu e a Débora Lopes escrevemos uma matéria falando sobre as duas pesquisas divulgadas pelo Ipea. Uma era uma pesquisa de opinião chamada Tolerância Social à Violência Contra as Mulheres e a outra era é Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde. Com isso, muita gente só sacou agora: o Brasil é machista.

Inclusive, a pesquisa incentivou a criação da campanha online #Eu Não Mereço Ser Estuprada, que alcançou a marca de 11 mil usuárias que puderam participar e expressar seu repúdio pelos resultados. Inclusive, a criadora da campanha, Nana Queiroz, recebeu diversas ameaças de estupro por conta disso.

E hoje (04/04), foi divulgado pelo próprio Ipea que a pesquisa de opinião Tolerância Social à Violência Contra as Mulheres foi publicada com erros. Um deles foi que a afirmação "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" obteve 26% de aprovação dos entrevistados e não 65%, como publicado anteriormente. Inclusive, essa afirmação foi a que mais chamou a atenção. Em termos práticos, nada de grave vai rolar porque é uma pesquisa de opinião, o negócio agora é saber o que é que vai rolar quanto à opinião nacional sobre o assunto.
O gráfico correto é esse aqui:


É claro também que muito chorume que consegue passar batido na internet deu as caras com o resultado das pesquisas. E não duvido nem um pouco que, com a errata, esse pessoal do chorume vai considerar uma vitória, esses caras tipo o “liberal sem medo da polêmica” que escreveu “não tenho dúvidas de que 'garotas direitas' correm menos risco de abuso sexual” e outros otários que prestam esse maravilhoso desserviço na internet, a ponto de falar que a violência contra à mulher no Brasil é exagero ou que curtem chamar qualquer mulher de FEMINAZI (um termo que adoro, aliás).

Parece que toda essa parcela de brancos privilegiados ainda não sacou que a sociedade machista que eles tanto defendem com unhas e dentes é sim um problema social, a ponto de ser uma puta de dor de cabeça para qualquer mulher pegar um metrô porque ela tem que conferir à sua volta se algum otário quer encoxá-la.

Em vista da publicação da errata, acabei conseguindo conversar com a Luana Pinheiro, técnica do Ipea, que me informou que o relatório corrigido será publicado entre hoje ou amanhã no site oficial do Ipea e que “mesmo com os erros, isso não reduz de forma alguma a gravidade que a pesquisa trouxe à tona. Ainda 58,5% concordam que se a ‘mulher soubesse se portar, não haveria estupros’, ou seja, mais do que a maioria concorda que a vítima é culpada pelo estupro”. Lembrando a todos também que a outra pesquisa “Radiografia” não está errada e que 70% das vítimas de estupros são crianças e adolescentes.
E também não recebi nenhuma errata sobre a pesquisa do Fórum de Segurança Pública (publicada no ano passado) que mostrou que o número de denúncias de estupros no Brasil é superior ao número de denúncias de homicídios. Hoje, quando saí da cama para trabalhar, não senti nada diferente e acho que nenhuma mulher se sentiu mais segura de alguma forma. Nada mudou para nenhuma de nós. Tanto faz se é 65% ou 26%, ainda é perigoso ser mulher no Brasil.
Siga a Marie Declercq no Twitter: @marieisbored

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Hoje é dia dos Conselhos!


Hoje é o dia dos conselhos, lembra-se e esclarece-se a coletividade, visando a devida valorização dos conselhos municipais. A escolha do dia 3 de abril para a celebração Dia Mundial dos Conselhos não foi por acaso, nem tão pouco mera coincidência e sim, por ser a data da criação da Carta Magna deste Município, ou seja, da Lei Orgânica Municipal.
O artigo 204 § ll da Constituição Federal de 1988, assegura a participação popular, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis. Portanto, os conselhos municipais têm por finalidade principal servir de instrumento para garantir a participação popular, o controle social e a gestão democrática das políticas públicas e dos serviços públicos. São órgãos que integram a estrutura do Poder Executivo, junto ao órgão gestor da política, na perspectiva da articulação permanente. É um colegiado, de caráter permanente e autônomo.
Como fruto do trabalho de articulação e qualificação dos conselhos surge o Fórum dos Conselhos Municipais de Pelotas, criado pela Lei nº 5.908, de 13 de junho de 2012, tendo por finalidade promover a dinamização, a formação e a articulação, dos diversos Conselhos existentes em nossa região, opinando para qualificar e dar maior organicidade à luta por Políticas Públicas, que assegurem o exercício da cidadania, buscando garantir o acesso de todos os cidadãos aos direitos sociais básicos.
O Fórum dos Conselhos Municipais de Pelotas tem como coordenador eleito: Jorge Fernando Cabral – CONER; Vice coord.: Iumara Antunes Moreira – CMAS; 2º Vice: Elio Ferreira de Andrades – CMPesDefic. e  a secretária Diná Lessa Bandeira - CMDM. O Fórum dos Conselhos realiza suas plenárias na primeira terça-feira de cada mês, às 13h30min, na Casa dos Conselhos, Rua Três de Maio, 1060. Convida a todos os interessados a participarem.

                                  Pr. Jorge Fernando Cabral - Coordenação                           

Estudo do IPEA sobre violência contra o gênero feminino


Confira a nota técnica nº 11, referente à "Estupro no Brasil: uma radiologia segundo os dados da saúde - versão preliminar" e a pesquisa "Tolerância social à violência contra as mulheres", do Sistema de Indicadores de Percepção Social (Ipea), para encaminhamento à Rede Lilás.

Comitê Gestor da Rede Lilás
Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado do Rio Grande do Sul - SPM/RS



terça-feira, 1 de abril de 2014

Nilce Cardoso: “Ser mulher me ajudou a enfrentar a tortura”

Via Sul21

Nilce veio de São Paulo para o Rio Grande do Sul com o primeiro marido para refazer as bases da AP no estado | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Nilce veio de São Paulo para o Rio Grande do Sul com o primeiro marido para refazer as bases da AP no estado
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Lorena Paim e Nubia Silveira
Os olhos claros, brilhantes, vivazes, o riso fácil e os gestos incontidos revelam a psicopedagoga, feliz com a família que construiu. Quem desconhece o passado de Nilce Azevedo Cardoso não imagina que tem à sua frente a ex-integrante da Ação Popular (AP), torturada no DOPS gaúcho e na Oban paulista. Mulher corajosa, forte, apesar do seu tipo mignon, ainda luta para superar as marcas deixadas pelos socos e choques que recebeu e as horas passadas no pau de arara. Seu útero foi queimado, o esterno quebrado e a coluna precisou receber uma placa e alguns pinos para se manter no lugar.
Mais de 40 anos depois, ela lembra aquele período e diz que faria tudo outra vez. “Nós não estamos em época de reconciliação, mas de reconstrução de um novo estado e todos deveriam ser julgados”, acredita ela, falando sobre os torturadores e os mandantes da ditadura. Radicada no Rio Grande do Sul, orgulha-se de ter recebido este ano o título de Cidadã de Porto Alegre, da Câmara de Vereadores, e a Medalha Mérito Farroupilha, da Assembleia Legislativa.
Para o Sul21,  Nilce, que usou durante a resistência, entre outros, os nomes de Vera e Mônica, deu mais do que uma simples entrevista. Deu um depoimento, sem censuras, sobre sua luta contra a ditadura e a tortura que ainda é praticada no Brasil.
Sul21- Como você se sente ao falar sobre a prisão e as torturas que sofreu durante a ditadura?
Nilce Azevedo Cardoso
– Foi algo bastante brutal. Levei muito tempo para poder falar sobre isso. Atualmente me sinto à vontade porque estou fazendo disso uma parte da minha militância, para que as pessoas fiquem sabendo, e para que a gente possa buscar justiça. Para que se possa falar e conhecer a fundo, parece que há muito caminho a percorrer. Se antes falávamos de uma ditadura que parecia longínqua e de uma tortura que parecia inexistente, hoje é só entrar em uma delegacia e a gente vê pau de arara, gente apanhando. Temos que pedir justiça em todos os sentidos: onde estão nossos mortos, quem os torturou – se estavam (a ditadura e seus agentes) defendendo uma coisa em que acreditavam, por que esconder os corpos? Foi uma luta que começou com familiares dos desaparecidos, e temos muito a fazer ainda porque os poderes públicos demoraram e demoram muito (a lutar pela verdade), por pressão certamente.
"Levei muito tempo para poder falar sobre isso. Atualmente me sinto à vontade porque estou fazendo disso uma parte da minha militância" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Levei muito tempo para poder falar sobre isso. Atualmente me sinto à vontade porque estou fazendo disso uma parte da minha militância” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Não conseguimos ainda pegar a raiz da violência”

Sul21- Por que somente agora se fala sobre desaparecidos, torturados, presos?
Nilce -
Nada se faz de uma hora para outra. É tudo absolutamente montado para se ter uma ditadura. Para se ter uma democracia também. Todos os movimentos começaram a aparecer após a redemocratização do país e, assim, surgiram as condições objetivas de fazer as comissões da verdade. É tanta violência na sociedade que temos que procurar as origens. A violência está legitimada, nas famílias, nas cadeias, na sociedade. Começou-se a estudar esse tema nas academias. E os governos começaram a pautar sobre isso.
Sul21- O que provoca a tortura?
Nilce -
Ajudada pelos filósofos, a gente entende que a humanidade foi sempre violenta. O bem, o mal, o amor, tudo isso é fruto de uma construção. Não conseguimos ainda pegar a raiz da violência. Que civilização nós criamos que permite isso? Perdemos há pouco o líder sul-africano Nelson Mandela, que levantou a questão do preconceito e passou mais de 20 anos preso. Então, é uma luta grande que, por ser molecular, teria que ser de todo o mundo. Quem puder falar que fale sobre o que aconteceu, mesmo que doa, que dê pesadelo à noite. Ainda hoje sonho com a tortura.
Sul21- Ao falar, você revive aqueles dias de prisão e tortura?
Nilce -
Revivo de outra maneira. Tive 17 anos de psicanálise e pude reviver muita coisa. Sofri durante muito tempo de uma amnésia muito grande, anos que não me lembrava de coisa alguma. Presa e torturada no DOPS em Porto Alegre, eu acabei entrando em coma. Fui para o Hospital Militar, depois voltei à prisão. Em geral, os médicos costumavam liberar (os torturadores) para continuarem a tortura. Foi tão traumático aquele momento que, pendurada no pau de arara, tendo sido queimada e levado choques por toda parte, o corpo perdeu o sentido de proteção. Aí o psíquico ficou fragilizado. Quebraram meu osso esterno a socos. Entrei em coma, o que agora me parece uma defesa. Apanhei muito na cabeça, me deram muita medicação. Hoje tenho cirrose autoimune, não se sabe como veio. Quando cheguei na Oban, em São Paulo, não consegui chamar ninguém da minha família, não lembrava do nome de pai, mãe, irmão, para ligar para eles.

“Pedro Seelig estava ali. Nilo Hervelha me batia toda hora”

Sul21- Sabe os nomes dos seus torturadores?
Nilce -
Sei de alguns. Pedro Seelig estava ali toda hora, lembro de Nilo Hervelha toda hora me batendo. Muito tempo depois, uma vez, por acaso, dei uma cruzada com Pedro Seelig num corredor, reconheci-o pelo cheiro.
"A revolta contra a tortura me vem na forma desse sentimento interessante que é de luta" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“A revolta contra a tortura me vem na forma desse sentimento interessante que é de luta”
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21- Que sentimentos ficam da tortura?
Nilce -
Sentimento de indignação, por acontecer e continuar acontecendo uma coisa dessas. Essa revolta me vem na forma desse sentimento interessante que é de luta. Um ódio que não me tortura mais, ao contrário, me empurra mais para a luta. Um horror tão grande que não tem nome, é inimaginável o que uma pessoa sente pendurada no pau de arara, o corpo absolutamente entregue, as blasfêmias que as pessoas ficam falando, a gente nua de modo que se perca nosso contorno afetivo. Para que a gente passe a ser um objeto, uma coisa qualquer que eles possam fazer o que bem entendem (e dizem isso).
Sul21- Você tomou a decisão de não reagir durante a prisão.
Nilce -
Pela função que eu ocupava e pelas coisas que eu sabia, percebi quem tinham entregue o meu nome. Naquele momento eu tinha duas saídas: ou eu gritava ou ficava muda. Eu tinha certeza de que eu não ia falar nada e que ia morrer. Pensava: quero morrer lutando ou entregando meus companheiros? Por maior que fosse horror, o medo, eu fui ficando cada vez mais muda.

“Às vezes só tirar a roupa é absolutamente insuportável”

Sul21- Com o foi a sua ida do DOPS de Porto Alegre para o centro da Oban, em São Paulo?
Nilce –
Isso de lugar pior ou melhor de tortura não existe. A Oban era um centro de tortura organizado para isso, com dinheiro vindo de empresários. Eu já estava um mês e meio presa em Porto Alegre.Tinha muita coisa aberta, as pessoas já tinham falado. Eu estava muito mal fisicamente e talvez por isso não fui para a chamada cadeira do dragão (cadeira de choques) na Oban. Às vezes só tirar a roupa é absolutamente insuportável. Uma agressão que para as mulheres tem uma particularidade maior. Dá muita vergonha, ódio. A ameaça quase tem o efeito da própria tortura. Eu sofri outro tipo de tortura, pois estava debilitada, tinha perdido sangue e muitos quilos, tinha infecção generalizada no intestino e no útero. Muita gente sabia que eu estava presa e não iam me matar, me fazer sofrer desaparecimento ou “suicídio” como se chamava. Eram torturas mais psicológicas, quase sempre de noite, com luzes e som muito altos.
Sul21- Quais as lembranças da Oban?
Nilce -
Havia várias equipes de tortura na Oban, entre as quais a de inteligência, que estudava o perfil de cada um (ao contrário de Porto Alegre, onde Pedro Seelig era a cabeça para tudo). Sabiam que eu vinha da JUC – Juventude Universitária Católica antes de integrar a Ação Popular (AP) e viram nisso um meio de chegar em mim. Um dos torturadores, Mangabeira, era muito supersticioso. Ele usava uma roupa de candomblé, mas exageradamente. Uma noite, me levou para uma sala enfumaçada e me disse: hoje nós vamos conversar com o diabo, quero ver se você vai ficar em silêncio. Aí eu disse: o que estou vendo é o diabo que me protege e não o que te protege, pois ele não é como você está falando. Imediatamente ele me tirou dali. (Pode ser algo da minha imaginação. Na Oban tinham me tirado toda a medicação. Pode ter sido alucinação? Não sei.)
"Eles queriam pegar toda a liderança da AP e liquidar, o que significa matar" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Eles queriam pegar toda a liderança da AP e liquidar, o que significa matar”
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Até quando ficou presa em São Paulo?
Nilce -
Fiquei um mês na Oban. Como eu sou paulista, tinha militância em São Paulo. Eles queriam saber as ramificações, para acabar com a Ação Popular. Eles queriam pegar toda a liderança e liquidar, o que significa matar. No ano seguinte, 1973, tivemos dez mortes. Paulo Stuart Wright, um de nossos dirigentes, é desaparecido até hoje. Quando voltei para o Dops em Porto Alegre, todos nós saímos da prisão, pelo trabalho do meu advogado Eloar Guazzelli. Foram quase seis meses presa no total. Nos soltaram porque não acharam provas. O que acharam sobre mim? Que era operária, militante estudantil, tinha pichado rua. Quando sai, tinha que me apresentar semanalmente na auditoria militar. No final, o processo foi arquivado.
Sul21 – Qual a origem da sua militância?
Nilce –
Primeiro entrei na JUC – Juventude Universitária Católica e em 1967 fui para a AP, tinha terminado a faculdade de Física na USP. Passei para o que se chamava de “serviços”, fazendo a ligação entre os dirigentes, tudo o que fosse organizacional (por isso conhecia todos eles). Fazia depois a política de integração na produção, como se chamava todo o trabalho com os operários. Fui ser operária, aprendi desde como me comportar até como era a vida delas. O pessoal daqui de Porto Alegre tinha caído, o movimento estava desarticulado. Antonio Ramos Gomes, meu primeiro marido, veio para cá, ficou na coordenação, e eu vim junto, trabalhei na Renner, fábrica de tintas. Em São Paulo, trabalhei na Rhodia.

“Eu era muito dura. Achava: se entrou na luta, tem que aguentar”

Sul21 – Como foi sua prisão?
Nilce -
Em 11 de abril de 1972 fui sequestrada num ponto de ônibus onde a gente costumava se encontrar. Fiquei sabendo quem me delatou. Eu era muito rígida. Achava: “se entrou nessa luta, tem que aguentar”. Por exemplo, alguém ir para a televisão e se declarar arrependido eu achava o cúmulo. Mas depois percebi que o ser humano não aguenta as torturas, tem um limite e daí fala. Por exemplo, botaram o filho de um companheiro nosso pendurado no meio do oceano, ameaçando jogá-lo. Esse era o limite dele. Passei a ver filmes, como A Memória que me Conta, de Lucia Murat, Mentiras que me contaram, Que bom te ver viva, ambos com Irene Ravache. Hoje, com 68 anos, tenho outra compreensão. Entendo que o ser humano tem limites e cada um tem o seu.
"Perdoo meus companheiros de luta.  Aos torturadores cabe justiça" |  Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Perdoo meus companheiros de luta. Aos torturadores cabe justiça”
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Hoje você tem outro olhar, de perdão?
Nilce -
Perdão aos meu companheiros de luta, sim. Aos torturadores, não cabe essa questão, cabe justiça. A eles e aos ditadores, a todos os mandantes civis e militares. A eles cabe serem julgados e condenados pelo que fizeram. Nós já fomos julgados. Não é por acaso que estão fazendo toda essa farra dos mensaleiros, tem outros dos quais não se fala nada. Porque aí se falaria de outras justiças, de outros processos.
Sul21- A propósito, Mandela falava em “reconciliação” na África do Sul. Essa palavra caberia aqui?
Nilce -
Não se trata disso no nosso caso. Mandela estava num país dividido. Nós não estamos nessa época de reconciliação, mas de reconstrução de um novo estado e todos deveriam ser julgados. Todos os mensaleiros, por exemplo, devem ser julgados. A justiça tem que ser feita. Mesmo com aqueles que, na tortura, nos davam água, um doce, como uma investigadora fez comigo. Os argentinos já fizeram isso (julgamentos, justiça), os uruguaios também. Na nossa história isso vai significar muito, porque estamos vivendo a impunidade. Não sei se Dilma vai precisar desse exemplo do que Mandela fez para governar. Nós conseguimos um estado de direito, estamos construindo uma democracia. Ela teve que fazer alianças espúrias, é uma mulher de fibra que está aguentando muita coisa.

Sul21 – Qual o papel da JUC e outras organizações religiosas na luta contra a ditadura?
Nilce -
Há alguns que acreditam nos valores morais da religião. Todos esses movimentos de juventude (dentro da Igreja Católica) surgiram quando perceberam que a Igreja, como instituição, estava apoiando o golpe. Então, montaram essas resistências. Ver, julgar e agir era nosso lema. Houve padres que foram barbaramente torturados. Então, surgiram outras necessidades que deram origem a movimentos mais efetivos, no sentido de tomada do poder. Na AP fazíamos trabalho de conscientização para um dia vir a tomar o poder, e discutíamos essas questões com os companheiros da luta armada.

“Ao sair da prisão, sofria de paranoia, de fobia”

Sul21 – Como foi a sua vida após sair da prisão?
Nilce -
No início não andava sozinha, tinha que ter alguém junto. Sofria de paranoia, de fobia. Que bom te ver viva é o título de um filme recente, que foi fundamental para minha retomada à vida. Passei a trabalhar a ideia de porque eu estava viva e os outros morreram. E também minha analista me dizia: pare de ter pena de si mesma, não foi assim que você foi educada por seus pais. Voltei a ser professora de Física, depois psicopedagoga e psicanalista. Não pensei em sair do país, quis ficar junto dos meus amigos, de minha família. Entrei em vários movimentos que me davam respaldo político e afetivo. Militei no MDB, no IEPES,  na CUT e no PT, principalmente no movimento de mulheres. Sempre ligada aos movimentos pelos direitos humanos.
"A tortura é um ato de maldade, pensado para o aniquilamento do ser humano, em todos os níveis" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“A tortura é um ato de maldade, pensado para o aniquilamento do ser humano, em todos os níveis”
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Em certa ocasião de sua prisão e tortura, você pensou em parar de respirar…
Nilce -
A tortura é um ato de maldade, pensado para o aniquilamento do ser humano, em todos os níveis. Quando te despem, dão socos, os choques em todas as partes do corpo, inclusive vagina adentro para queimar o útero, é uma dor que não saberia descrever, de tão intensa que parece que está na alma. No pau de arara, na posição de trancar todas as articulações, a circulação não existe, como se tudo estivesse represado ao longo do corpo. Parece que cada célula foi amarrada. Hoje, meu médico diz que tenho que curar célula por célula. Quando veem que a pessoa está sem circulação, entregam para alguém e a gente fica andando até voltar à tortura. Eu pensava que não iria sobreviver, pensava: se estava já condenada à morte, me matem de uma vez. E depois pensei: e se eu parar de respirar? Fiquei bastante tempo (sem respirar). Mas o instinto de sobrevivência é maior. Psiquicamente isso teve consequências traumáticas sérias, pois ninguém pode atentar contra a própria vida. Por isso talvez entrei em coma e, mais tarde, tive amnésia.
Sul21 – Os choques no útero teriam a finalidade de destruir a sua essência feminina?
Nilce -
Naquela hora falavam algo que destrói: mãe você nunca vai ser. Atingia minha essência de mulher. Com os choques eu me sentia estuprada. As palavras deles, quando me xingavam, era a mulher que estava sendo espezinhada. É um milagre da vida, com o útero que tive, depois conceber dois filhos – Semíramis e Paulo – e agora ter quatro netas. Milagre que vem da quase impossibilidade física de ficar grávida. No parto perdi muito sangue, mas a filha nasceu normal.
A questão da mulher sempre foi estudada e usada por eles. E isso também foi a fonte de minha possibilidade de superação. Quando saí do coma, pedi uma gilete; surpresos, imaginaram uma tentativa de suicídio. Mas não, era para me depilar, pois estava peluda. E não queria ir para a tortura peluda. Aquilo me recuperou algo do feminino e de ser gente. Pedi para minha mãe trazer esmalte, pente, coisas mínimas. Quando cheguei na Oban de unha pintada, você pode imaginar o que as outras acharam. É uma questão de brio e isso me salvou. Por exemplo, para dormir na prisão usava pijama e chambre.

A vida na clandestinidade incluía trabalho, reunião com os operários, distribuição de panfletos

Sul21 – De onde vem sua resiliência, a força e a capacidade de superação?
Nilce -
Acho que vem dos meus pais, os dois eram professores. A gente aprendeu a se virar, a nunca largar a peteca. Eu era bailarina clássica quando criança e não tinha essa história de cansaço. A vida na clandestinidade incluía trabalho, reunião com os operários, depois distribuição de panfletos. E ainda lavar a roupa, tarefas domésticas normais. E fazer as tarefas internas, como escrever as cartas com códigos para os dirigentes. A que horas dormia eu não sei. Um grande companheiro, Diógenes Sobrosa, braço direito do Lamarca, comentava comigo, quando eu já tinha saído da prisão, sobre as cartas que eu escrevia em código e passavam pela censura: “que cartas medíocres, sem estilo…”
Sul21 – Quando você se deu conta de que estava voltando à vida após a prisão?
Nilce -
Felizmente tenho essa história de alegria. Tenho um exército de anjos da guarda, além de pessoas importantes, amigos que foram fundamentais e me davam sustentação afetiva, meu segundo marido, Antônio Norival Soave. Logo comecei a trabalhar, dando aulas. Fiz biodança, que enfatiza a questão do toque. Acho que o nascimento dos meus filhos me recuperou. Apesar de meu útero machucado, com sangramento, minha filha nasceu bem. Meu segundo marido era operário, ficou presos por dois anos, quando saiu já tinha elaborado um pouco (a tortura sofrida), aí eu vejo diferenças com essas pessoas, que saíam para as ruas mais recuperadas. Eu levei muito tempo, tive troca de personalidade e outros problemas, até fazer uma análise bem feita, para buscar uma unidade, uma identidade. Meus filhos tinham no pai um sustentáculo afetivo. Hoje, eles não falam sobre a tortura.
"O  nascimento dos meus filhos me recuperou" | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“O nascimento dos meus filhos me recuperou”
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Como foi o diálogo com seu pai sobre sua militância?
Nilce -
Ele estava morrendo e me perguntou se tinha valido a pena o que passei. Eu disse que não escolhi ser torturada, mas escolhi ir para a resistência e isso valeu a pena; faria de novo, talvez corrigindo alguns caminhos. Minha vida não é centrada na tortura que senti, eu fui torturada durante a ditadura, hoje sou uma mulher resistente, indignada e continuo lutando.

Sul21 – E o legado à nova geração?
Nilce -
Eu sou uma entre muitas que resistiram, fazemos parte de uma geração generosa que doou inclusive a vida para uma mudança na sociedade. Nosso legado é de alegria por ser parte dessa geração e ter isso como valor. Valor que vemos hoje no jovem que sai às ruas para lutar pelo que quer. Minha história já está caindo no vestibular. Nossos valores continuam muito firmes, temos que juntar as lutas todas para criar um novo mundo. É uma esperança que deve ser retomada. Amanhã será um novo dia, este era o lema de minha mãe. É preciso se indignar contra qualquer injustiça, aceitar as diferenças. Não nascemos para ser robôs, ao contrário do que o capitalismo pensa. É um momento especial para trabalhar junto com esses jovens contra qualquer forma de tortura e violência, não só daquela época, mas de hoje, para juntos podermos construir uma sociedade solidária, democrática e igualitária, que aceite as diferenças, sem discriminações de qualquer tipo.